terça-feira, 1 de maio de 2012

Esforços


Quero acreditar na minha própria satisfação,
Quero crer na beleza da vida minha,
Quero achar os dias bons, quero esquecer a aflição
De querer querer esquecer o que eu tinha.

Quero dizer que sou algo a mais
E perder-me nas sensações do dia-a-dia,
Quero deixar meu passado pra trás
E acreditar que agora eu queria

Tentar viver, sorrir por mim mesmo.
Aliviar-me as dores e ser quem não sou.
Quero tentar querer o indispensável,
Saciar minhas mágoas na correnteza instável,
Curar as feridas que o tempo não sarou.

No entanto o sentido último desse esforço
Se concentra no querer esquecer um rosto
Que não se esvai da consciência.

Às todas tentativas de paz em mim
Segue o oposto de seu próprio fim
Me empurrando em direção à demência.

O que me faz desejar apenas
O momento em que as vozes calam,
O vazio onde as almas vagam,
O esquecer que nesse mundo meu existem
Feridas que nunca saram.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Condições

Ao respirar o sopro do litoral,
Escalar as alturas do eu,
Libertar-se do inútil e banal,
Segregar-se dos seus...

Involuntário, sereno desespero,
Perder de vista a própria existência
No momento, ir além da própria consciência
Ao vento, conceber um mundo inteiro...

O presente atrasa a marcha
E ao caminhar sozinho
Sem vislumbrar nenhum caminho
O espelho do futuro se racha.

"São só pensamentos" - são?
Reparos malfeitos num ego
Débil, vil e cego
Sucumbindo à solidão.

Eliminar da mente a reflexão,
Recortar dos vícios o Não,
Libertar-se da liberdade, então
Serei feliz.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Esperando

Anoitece
E o sibilar dos ventos costeiros
Sussura-me doces tragédias,

É quando uma angústia calma
Toma de assalto as ruínas do meu peito,
Quando chega-se à percepção definitiva
De que não há mais nada a ser feito.

Na madrugada irei chorar com as nuvens,
Beber das minhas próprias lágrimas
Para não manchar as páginas
Do prólogo do meu epitáfio.

E acordarei sonhando
Uma vida mal concebida,
Sem direção definida,
Enquanto a tarde vai passando.

É só por isso que estou esperando.

Soneto Ausente

Enfim floriu
A venenosa rosa que cultivei
Em total empenho, as dezesseis
Pétalas cor de sangue jorraram do rio.

Um sorriso dolorido manchou-me as faces,
Suprindo, sem satisfazer, uma ânsia
Que carrego comigo desde a infância:
Saborear a dor dos alheios pesares.

Assim desfaço de mim furtivamente
Pra que eu mesmo não me atente
À dissimulação depravada da minha própria consciência,

Além das mentiras que vivo,
Das falsas trilhas que sigo,
Achei paz na dor, conforto na ausência.

Tártaro

Nesse plano além do terror
Torturam-se as mentes sãs,
Permeados por ares malsãs
São ensanguentados gritos de dor.

Os rios transbordam veneno
Nas margens pontuadas por corpos
Mortos, inchados, em rigor mortis pleno.

Membros mutilados balançando com o vento,
Espalhando pestilência e morte
Que mesmo o organismo mais forte
Faz vomitar as tripas no chão lamacento,

E os corvos sedentos de sangue
Em fúria cega alcançam
Onde os sonhos infantes descansam
E rasgam-lhe os pescoços enxangues.

É aqui onde os inocentes gritam
Ao ter os olhos arrancados,
Os escalpos decepados,
As torturas que os homens cogitam.

Ao sentir o sopro da vida
Fraquejar em seu pálido peito
A dor lhe cegará os sentidos
E à morte serás eleito.

Nesse lugar além dos últimos
Delírios de carnificina
Seus sonhos se rasgam nos afiadíssimos
Punhais de uma nova chacina.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Frio

Atirado no desdém e no escárnio
Minhas imagens distorcem e derretem,
E ao habitar o vazio
Quebram-se as partes que formam quem sou,

Ao grunhir das caixas metálicas
E seu movimento de estupro
Eu estou só.
Pois fui abandonado por mim mesmo
Enquanto fragmentos da minha identidade
Se dissolvem no vazio.

Aqui, no inóspito e hostil,
Eu sinto frio.
Aqui apenas existo, não desfruto, destruo ou crio.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Silêncio

Sorriu para a Lua, seu contorno
Recortado contra o céu noturno,
Fascinado pelo brilho morno
E a solidão do seu eu soturno

Mundo, vacilou seu olhar
E aos poucos deslumbrou
O mar. Deslocou os ventos,
Desedificou. Sonhou.

Acordou no frio da margem,
Segregado por princípio próprio,
Sufocou a paisagem, soterrou
No ópio a angústia, adiou viagem.

Seguiu de face erguida porém
Olhos baixos, procurando além
Da verdade aparente, no Sol
Da sua mente, um farol

No limbo interno do vazio.
Perdido no espaço extenso
Para vagar no ócio
E dedicar-se ao silêncio.