quarta-feira, 3 de maio de 2017

A Fonte da Nossa Angústia

A fonte da nossa angústia,
Que sobrepõe as virtudes mais básicas,
É o quadro incompleto que ilustra
O conjunto das nossas lástimas.

O ódio que inunda e guia
A visão parcialmente cega
Do prisma da nossa espécie
Corrompe a nossa empatia,
Nossa única força, nega,
Nossa unidade, enfraquece.

Corações vazios que esqueceram como se vive,
Separados da sua origem, isolados na multidão,
Tocados rumo ao abismo que inibe
Sua única fonte de salvação.

Eles clamam pela mudança
Do fracasso das suas histórias
Do único jeito que sabem,
"Queremos sangue em abundância"
Na vã esperança
Da cósmica balança
Não pesar igualmente para todos.

Pois no fundo sabemos
Que a fonte da nossa angústia
É nossa cúmplice íntima,
E a sua fome por mais vítimas,
Que nos vicia em não sentir culpa,
Irá finalmente obliterar
Tudo que conhecemos.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Nesse Dia

Só no dia em que seu pesar for tanto
E seu coração despencar através da sua alma,
Suas dores atravessando-te de uma só vez -
Um último gosto antes da calmaria eterna.

No dia em que seu coração rolar terra abaixo
E suas lágrimas se perderem no caminho para os seus olhos,
Seu eu estará completo e você, imune,
Seu ego totalmente fechado, sua culpa impune.

Só nesse dia você será livre,
E só assim você saberá quem é de fato,
Quando suas mágoas se destacarem
Da sua alma podre, seus vícios já além
De qualquer ajuda, você já extinto.

Quando seu coração se soltar
E você deixar de sentir,
O mundo preencherá
O vazio dentro de ti.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Autoconfiança

São sempre esses olhos no silvo da madrugada,
Tateando a imaginação às cegas
Na busca por apoio,
O núcleo da minha angústia envolto em trevas,
A provocação do sonho,
As frustações que não me ajudam em nada.

A calmaria é súbita.

E de repente eu não sou mais
A vergonha das minhas memórias
Nem a ausência das minha vitórias,
Sou só aquilo do que for capaz.

E eu me sinto eu mesmo novamente.
Todo eu plenitude, nascido dos escombros
Da minha auto-imagem, o coração quente
Envolto em seus fios longos
Que não deixam-me ver a direção em que me movo.

E sem perceber eu resolvo
Que vou me machucar de novo.

sábado, 27 de setembro de 2014

Constante

Ensurdecedor. As vozes não param,
Sequências batidas de dores vívidas,
O fechar da garganta, o sufoco súbito,
O aperto e a ânsia, a fúria sem objeto.

E as cores que vão-se indo,
E o pesar da alma já tão familiar,
A melancolia que te acalma,
O brilho dos olhos já findo,
Já acostumado a se desesperar
Surdamente pelos cantos da própria alma.

A sensação de estar prestes a ceder,
E saber o perigo que há em si
Por ser ferido e saber sobreviver,
Mas qual o sentido em insistir?

E acompanhar impotente a desilusão absoluta
Que se apresenta implacável até o gelar dos ossos.
Assistir a vida ser consumida pelo vazio das ações
E ver o mundo definhar até seus últimos destroços.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Arte

Seus olhos fazem o Sol se pôr,
Todo o seu eu crepúsculo,
Infinita parece ser sua dor
No seu universo minúsculo,

Hercúleo parece ser o esforço
De acordar dos sonhos,
O acinzentar dos dias
Fraqueja seu vigor,
O ápice da sua eloquência
Apresenta-se como um torpor,
A alegria e a sua ausência
Um suspiro sem cor,

Mergulhado na monotonia dos dias
O seu coração se afoga,
O vício da melodia é a própria droga,

Mesmo em toda sua aflição,
Ansia de satisfação,
Busca pela ilusão,
O tempo e a vida jazem indiferentes,
As pessoas e tudo o mais
Não vêem o mundo com suas lentes,
Todos os outros não sentem a dor que você sente,

Busque uma página em branco
E jogue as outras fora,
Perca-se nas notas e apresse o passar das horas,
Continue existindo embora
A vida não mais te habite,

Seja uma obra de arte
E jamais deixe de procurar beleza
Pois o mundo continua girando
Apesar da sua tristeza.

domingo, 27 de outubro de 2013

Paredes

O seu pulso bate, lento e constante,
Você vive, sonha, sente e se dissolve
No mundo, o seu tempo e o dos outros no mesmo instante,
Pelo êxtase simples você se envolve.

Deixe que tudo isso morra.

E faça do seu peito fortaleza,
Isole-se de si e então reconstrua-se,
Tire suas cartas da mesa,
Invente seu próprio jogo.

Convide o escárnio, a dor,
Torne a angústia parte de si próprio
E deixe que sua empatia se esgote,

Através do desprezo, elimine o rancor,
E a crueldade será seu ópio
Enquanto o riso, seu esporte,

Faça da máscara seu rosto
E encare o desprezo sorrindo
Pois todo ferimento que importa
É agora, com seu coração deposto,
Findo.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Lugar

Há quem tenha um lugar ao qual chegar,
Há quem chame esse lugar de lar
E há quem jamais pensou lá estar.

Há quem ame certos lugares
E desses guarde memórias de olhares
Que ocupam um lugar especial dentro de si.

Há quem sinta que certos lugares exerçam fascínio,
Há lugares que correspondem a um domínio
De um lugar que só existe escrito.

A maioria dos lugares ninguém jamais viu,
A maioria dos lugares já foi outro lugar
Porém o lugar que agora é esse lugar
Está no mesmo lugar do outro lugar.

Eu escolho com cuidado os lugares onde estar
Já que existem mais lugares do que eu posso sonhar,
Porém certos lugares sempre levam ao mesmo lugar
E outros não levam a lugar algum.

O meu lugar é de lugar em lugar
Sem cair no lugar comum,
É entre os lugares que quero estar
Sem chegar a lugar nenhum.