quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Enfim

A sua dor presa na garganta
E a muda e sufocante boca.
O suspiro liberta as lágrimas
E a alma vomita o desgosto.

O passado acabou, queimou-se o combustível.
O presente é dor, do futuro indistinguível,
E o que traz a repulsa, o vício, a angústia:
Ser e saber quem sou, viver como vivo.

Um desprezo sem referências, dois lados negativos,
Fúria sem violência, surtos inofensivos,
Batida sem cadência, olhares inquisitivos
Sem respostas, sem ter quem responda...

O chão e o céu vazios
Perderam o sentido,
O desabar da prisão
Deixou sólidos cacos de vidro

Onde deito, rolo, ando, corro e finjo ser alguém.
De alimento o desdém, e uma sede por lágrimas.

São as únicas ânsias que possuo
E a fonte do meu sustento.

Já não há mais lamento...
Certo desespero no escuro...

Nos olhos vidrados que tentam penetrar a escuridão
Mas só refletem seu interior para dentro.
Na injustiça do mundo percebida em vão,
No torturante ritmo lento
Que a bem-vinda Morte declara sua visita.

Enfim sem dor, sem sofrimento.

domingo, 24 de julho de 2011

Realidade Ausente

Mesmo depois de partido em pedaços
E atirado, sangrando, ao chão,
É incrível atestar
Que ainda machucas meu coração.

A alma gêmea que me revelou
Toda a extensão da minha insignificância
Perdeu-se no fluxo do Tempo
Mas minhas cicatrizes ainda sangram.

É extremamente doloroso
Não ser capaz de apreciar
O valor de tudo o que deveria importar.
Mas torna-se excruciante imaginar
Os diferentes caminhos que eu poderia trilhar
Ao mudar minha forma de andar.

Esse sangramento ainda não parou...
Já não há gotas, mas correntes submersas
No mar do meu sangue, que me afoga,
Me distorce, me dispersa.

É uma verdadeira tortura amar...
Contra a vontade e incondicionalmente,
Irracional e imparcialmente,
Atirando-se de cabeça num universo
De realidade ausente.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Único Desejo (Despedida)

 Me alegraria conhecer alguém
Que tivesse penetrado no véu da infelicidade
Tão profundamente
Que a esperança se torna indiferente
E o que há são os arrependimentos passados
E a agonia do presente.

Eu gostaria de conhecer alguém
A quem a existência por si só não mais tivesse sentido,
A quem uma dor lancinante e constante
Flagelasse o coração partido,
Alguém sem correspondente.

É para mim extremamente doloroso o suportar
Das memórias ainda vivas e incontroláveis
De passados recentes, e impossível tolerar
As possibilidades que houveram de caminhos diferentes
Que agora rondam a minha mente, livremente.

Já não vejo sentido algum em suportar essa agonia,
Não tenho mais nada. Não sou mais nada.
Não desejo mais nada, perdi tudo.
Só quero descansar e esquecer...

Esquecer de tudo e deixar de ser,
Gentilmente passando para o repouso eterno
E sem consciência de que nada está para acontecer.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Túmulo

Meu coração é um túmulo

Pois

É um cadáver numa cova de dois,
Preso ao chão por correntes
Geladas que o envolvem
Dos pés à cabeça,
Completamente.

É um lugar sem luz
Onde a vegetação não vinga,
Mesmo assim um espantalho preso numa cruz
Fica ali, dia e noite à míngua.

Desmancharam as paredes do meu túmulo
Como se desmancha marcas na areia,
Sem muito esforço, com desdém,
Como em quem não corre sangue nas veias.

E depois de dar tudo que tinha e ser morto pelas costas
Meu túmulo é derrubado num insulto final,
Minha lápide sem recado é jogada sobre o sal
Que cobre o solo à volta do meu caixão,
Para eliminar quaisquer possibilidades
De manifestação das minhas últimas vontades
Que poderiam germinar nesse sujo chão
Desse triste vão
Que é o meu coração.

sábado, 30 de abril de 2011

Diante do Abismo

E tornou-se primal,
Fruto da fome de sangue
De uma decadência final.

De súbito lhe sobreveio a ânsia absoluta,
Negada sob um luto obsceno
Da vida ainda nem vivida
Que a sua besta interior ainda refuta.

Chocaram-lhe as marcas humanas
Cravadas cruelmente na História,
E curvando-se diante do abismo
Ele teve um vislumbre de glória:

Leu imagens nos sons
E viu formas nas escalas,
Harmonizou os lamentos em melodia
E destrancou a porta de entrada
De uma dimensão só sua,
Na qual livrou-se de si mesmo
E reescreveu seu conceito de magia
Guiando as curvas da estrada
Da solenidade bacante e nua.

Ele fez de si algo mais
Ao romper com seu ser
E docemente rasgar
A cortina diante do Existir,
Firmou-se sob o seu império
De múltiplas amplitudes
E a um libidinoso toque lunar
Fez o Universo sorrir.

terça-feira, 8 de março de 2011

Mulher

O que seria de mim se assim não fosse?
Viveria eu num mundo desigual,
Onde a minha única arma
Seriam as curvas corpóreas, temporárias?

Seria eu fadado à exposição necessária,
Á fraqueza interna, à dependência arbitrária?

Eu seria um pária.

O desgosto me invadiria os pulmões,
E eu me julgaria inapto à sobrevivência.

Eu seria propriedade, seria posse,
Nunca proprietário d'um igual.
Eu pensaria menos, não por opção,
Mas por ser destinado a ser sensual.

Eu seria o Mal.

Seria pecado, impureza,
Gado, sutileza,
Servo, com certeza.

Mas será que seria?
Ou será que sou?

Serei eu o Mal gerado
Pondo a culpa do próprio Ser
No lado errado,
Na origem do meu viver?

Serei eu o criador dos rótulos
Que grudam ao nascer
E não se desfazem jamais?

Sou a manifestação dos medos,
A insegurança dos segredos,
A manutenção da quimera
Da auto-degeneração.

Vivo, então, em desgraça plena,
Numa vantagem obscena,
Cruel, sem pena,
Para com quem não tem culpa
De nascer com o dom da Vida.

Personifiquei a inveja
Através de milênios de repressão,
Colocando-me acima e fazendo crer reais
Essas minhas palavras,
Vigiei de perto a provação alheia
E a santifiquei, criei mártires entre elas.

Agora a culpa me habita.
O plasma mensal não lava
As lágrimas do sofrimento,
Nem o alívio de um momento
Sacrifica para si um intento

De ser livre, igual, maior
E, enfim, monumento.

Aqui eu só as suplico:
Abdiquem da dor e da culpa,
Sejam amazonas na luta,
Sejam poetas da conduta,
E tornem-se o que nasceram para ser.

Mulheres.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Auto-Criação

Novas formas, ecos sem origem,
Ondulando a esmo, desmoldando uma superfície,
Onde antes eu parecia me encaixar
Agora deslizo... escorrego por sobre as ondas.

O calor que fundiu as bordas
Da minha definição e suas vertentes,
Ajudará, espero, a moldar um novo recipiente

Que será limpo, terá sutileza,
Se formará em meio à correnteza
E só quebrará quando for necessário.

Terei nele uma gama de mim mesmo
Onde poderei misturar, decantar e destilar,
Brincarei com as partes de minha essência,
Procurando combinações inesperadas
Até achar a que mais me agrade ou me interesse.

Então a alimentarei, priorizarei sua independência,
E ela irá retornar-me o melhor dos presentes:
A afirmação solene da minha existência.